Wednesday, May 09, 2007

Danças das Ilhas - Uma leitura

Por Kwame Gamal Monteiro

1. APRESENTAÇÃO

O músico poli-instrumentista, produtor musical, arranjador,engenheiro de som, compositor e intérprete, estudioso da música de Cabo Verde, Joaquim Fernandes de Pina Alves (Kim Alves), vai fazer o lançamento do CD de música tradicional caboverdeana instrumental “Dança das Ilhas”. Este CD apresenta temas originais da nossa música (sendo a maioria da autoria do mesmo), com maior incidência nos rítmos de Santiago e Fogo, todos com tratamento altamente sofisticado (e ao mesmo tempo completamente acessível a qualquer leigo musical) em termos de harmonização melódica e rítmica, fruto de toda uma vida de recolhas e pesquisas dos rítmos realmente autóctones caboverdeanos.

O disco (totalmente produzido em Cabo Verde, no Kmagic Digital Studio) é uma compilação cultural de ritmos nacionais, onde a alma caboverdeana desfila todas as suas faces e seu esplendor de forma sublime e harmoniosa, constituindo-se, sem dúvida nenhuma, num documento etnográfico de valor inestimável.

O seu primeiro concerto a Solo em Cabo Verde.
O seu primeiro CD a Solo.

2. O PROJECTO ARTÍSTICO

Trata-se dum disco totalmente acústico e executado por uma orquestra de cordas caboverdeana, na qual o autor executa todos os instrumentos. É composto de doze temas:

1.Spritu’l Tabanka (Kim Alves)
Trata-se de uma tabanka cuja melodia é solada no violão nylon, e cuja estrutura harmonica é evidentemente jazzística. A música exalta a harmonia da tabanka di Chã di Tanque.

2. Bandera Nhô Sanfilipe (Kim Alves)
Um tema que exalta a bandera, rítmo exclusivo da Ilha do Fogo tocado por ocasião das festas de romaria, a um nível exclusivamente percurssivo (tambores), mas que aqui se apresenta enquadrado por uma harmonia de cordas onde as progressões e as escalas utilizadas conferem um carácter totalmente universalista.

3. Disgraça’l de um camponesa (Kim Alves)
Um Batuko,rítmo afro originário exclusivo da Ilha Santiago, no qual a melodia é solada no violino,instrumento tradicionalmente ligado à morna e à coladera, e que aqui é tocado com a técnica de execução da cimboa.Do mesmo modo, a orquestração de cordas presente confere ao rítmo uma mais-valia evidente.

4.Tarrafal (Djirga/Dick Oliveira Barros)
Conhecida morna tocada com técnica clássica,que no fim retorna à morna tradicional,só que os acompanhamentos e o solo são tocados num só violão de 6 cordas, ao mesmo tempo.

5. Tudo Funáná (Kim Alves)
Um funáná no qual se consegue, de forma magistral,conciliar num mesmo tema, as três variantes tocadas do funáná(funáná lento,funáná sambado e funáná “rapicado”),feito esse conseguido apartir da distribuição das variantes pelos instrumentos intervenientes, sem promover choques.

6. Borda’l pilon (Kim Alves)
Um tema que mistura harmoniosamente o finaçon com o canizadi, rítmo afro da Ilha do Fogo também tocado por ocasião das festas de romaria,numa orquestração de cordas inovadora.

7. Corintiano
Tema que homenageia o mestre Luis Morais, no qual se passa do chorinho para uma coladera de andamento rápido, onde o virtuosismo do guitarrista se faz valer pela velocidade de execução aliada a uma total clareza de cada nota tocada.



8. Doce Guerra (Antero Simas)
Tema que homenageia o compositor Antero Simas, magistralmente executado num violão nylon de 6 cordas,com a técnica clássica utilizada ao serviço da essência cultural caboverdeana.

9. Kesmyn Cristal (Kim Alves)
Tema que se constitui na “salada”mais completa do disco, na medida em que mistura a coladera,o funáná lento, a tabanka, o batuko e ainda a morna galope, numa harmonização riquíssima e moderna, evidenciando, e de que maneira, a riqueza rítmica nacional.

10. Violôn Rafilon (Kim Alves)
Um chorinho caboverdeano,composto aos dez anos de idade, no qual já se evidenciava claramente o virtuosismo do autor.

11. Newbedford(Taninho Evora/Luis Rendall)
Um chorinho caboverdeano homenageando o Mestre Luis Rendall, cujo título imortaliza a memória da cidade de Newbedford, porto de chegada de muitos caboverdeanos,nos idos tempos da pesca da baleia

12.Caxon ka tem cofre(Kim Alves)
Um funáná lento tocado com a técnica clássica num violão de 12 cordas,único capaz de suportar a execução simultânea do solo, dos acompanhamentos e da percurssão.


3. UMA ANÁLISE

O projecto Dança das Ilhas constitui-se num projecto de recolha, pesquisa e execução descodificada de rítmos caboverdeanos,para orquestra de cordas,baseando-se a pesquisa em dois pilares fundamentais: a pesquisa musical etnográfica,que procura estudar e apreender os rítmos autóctones no seu espaço social (os seus atores no seu quotidiano, e as emoções que lhe são subjacentes), e a pesquisa musical técnica que procura apropriar-se das linguagens técnicas da nossa música (dentro do seu referencial próprio), no sentido de compreendê-las cabalmente, com o objectivo último de perceber os espaços passíveis de aperfeiçoamento e refinamento técnicos, a bem da nossa cultura.

No tocante à etnografia musical, o disco aborda com incrível propriedade as linguagens métricas dos nossos rítmos (conferindo aos mesmos uma impressionante clareza), e descodifica as linguagens emocionais dos mesmos(substrato ímpar que os confere uma identidade própria) de forma simples ( acessível a qualquer leigo musical) e sofisticada (perceptível na razão directa com o entendimento musical do ouvinte), conseguindo, através das harmonizações melódicas e rítmicas, transmitir as sensações específicas a que cada rítmo convida em seu estado mais puro e popular ( nas ruas, no chamado “ terra terra” ) .
Não obstante, a pesquisa etnográfica ainda tem o mérito de trazer à tona, e de forma muito mais penetrante ( devido às harmonizações instrumentais introduzidas),ritmos nacionais de riqueza métrica estonteante que têm-se mantido escondidos do panorama nacional e confinados a momentos específicos (sem projecção mediática nacional) de festas regionais, como o são os rítmos bandera, bragamaria e canizadi, da ilha do fogo, dentre outros.

No tocante à pesquisa técnica no sentido da execução da nossa música, o disco poderá ser considerado como uma autêntica escola de música de Cabo Verde, na medida em que o domínio perfeito e virtuoso das técnicas tradicionais de execução (instrumentos de cordas e percurssivos para mornas e coladeiras, gaita e ferrinho para o funáná, e instrumentos de percurssão para os ritmos “desarmonizados” melódicamente como a tabanka, o batuko, a bandera, o canizadi, etc) permitiram ao autor a demonstração de toda a beleza harmónica da nossa música e também permitiram ao mesmo encontrar as fórmulas mais felizes de harmonização instrumental dos rítmos que tradicionalmente são exclusivamente percussivos, permitindo, assim, a manutenção dos padrões métricos e emocionais que constituem a sua identidade (a sua alma).

Por outro lado, e debruçando-se sobre o capítulo dos estudos evolutivos na apropriação e execução dos nossos rítmos, o autor apresenta estudos fabulosos de uso da técnica da guitarra clássica na nossa música (para violão de 6 cordas e guitarra de 12 cordas), nos quais a simultaniedade de execução de várias acções ao mesmo tempo confere uma beleza única às composições excutadas, elevando a nossa música tradicional a patamares de padrão elevado ( em termos de músicas do mundo).
As harmonizações de cordas (não só as melódicas e rítmicas mas também o convívio harmonioso entre os vários instrumentos, sem sobrecarregamento de células rítmicas) elaboradas para o funáná, a tabanka, a bandera e o canizadi, constituem-se sem dúvida num referencial seguro e confiável para o estudo dos mesmos pelos músicos nacionais, da velha e nova geração, visto que o sofisticamento técnico impele a um estudo mais rigoroso, e a fidilidade à emotividade singular de cada rítmo assegura uma continuidade evolutiva da nossa música, sem que caiamos no erro de desvirtuar a nossa música em nome de um pseudo-modernismo acrítico.

O legado dos chorinhos dos grandes violonistas caboverdeanos do passado (como por exemplo Luis Rendall e Tazinho), também apresenta-se, neste disco, em óptimo “ estado de conservação”, ou até renovado com o uso de harmonias mais refinadas.

Em termos específicos de harmonizações e escala utilizadas nos solos do mesmo, o CD
Dança das Ilhas erige-se, sem dúvida, numa verdadeira revolução harmónica na música de Cabo Verde e , ao mesmo tempo e felizmente, numa prova irrefutável de que é possível à música tradicional evoluir para patamares harmónicos que a fazem ombrear com qualquer música erudita ( clássica ou moderna) sem perder a sua identidade e sua alma.
Em suma, estamos perante um trabalho que, a nível nacional, se constitui numa referência ímpar para o estudo da nossa música tradicional, e , a nível internacional, se constitui numa importante janela de Cabo Verde no Mundo.

Posto isto, só nos resta afirmar que o projecto Dança das Ilhas representa, por agora, o estágio musicalmente mais elevado e refinado das pesquisas em música de Cabo Verde, ou seja, pode ser considerado um tomo importante da enciclopédia viva da música de Cabo Verde, isto é, um documento altamente recomendáve

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