Monday, January 30, 2006

A hora da Guitarra Berdiana

 
Por: Santos Spencer (http://www.caboverdeonline.com)
Nôs Jornal newspaper (USA)
Posted: 30 de Janeiro de 2006

O poli-instrumentista cabo-verdiano, Quim Alves, está prestes a concluir a gravação do seu primeiro disco a solo ao fim de mais de 25 anos de música, período durante o qual já produziu para cima de 40 discos de artistas dos mais variados estilos musicais, não só de Cabo Verde mais também de outros países.

Há muito tempo aguardado pelos muitos admiradores, o álbum estreia de Quim Alves terá 12 músicas todas elas tendo a guitarra como a rainha da uma orquestra que acaba por também conceder uma certa primazia ao violino e o cavaquinho.

Este projecto, que vinha sendo sucessivamente adiado desde a década de 80, ganha agora corpo com um reportário à base de géneros de grande impacto na tradição cabo-verdiana a saber, Tabanka, Ladaínha, Batuco, Morna, Coladera, Finaçon, Funaná, Bandera, Canizadi/Braga Maria e Choro no estilo da Boavista, alguns deles com laivos de jazz.

“Vai ser uma obra portadora da alma cabo-verdiana à base de instrumentos que constituem a espinha dorsal da orquestra cabo-verdiana”, realçou Quim Alves.

Para isso, Quim fez questão de utilizar instrumentos “made in Cabo Verde”, todos eles saídos do atelier do construtor Aniceto Gomes, para quem o solista faz uma grande vénia. “O meu amigo Aniceto é um génio na arte de fabricar instrumentos de corda e ele está ao nível dos grandes construtores mundiais. Na minha carreira já usei largas dezenas de guitarras e cavaquinhos e posso garantir que esses instrumentos que usei neste disco, feitos pelo Aniceto, são uma doçura capaz de tentar qualquer músico de craveira internacional”, salientou.

Numa altura em que a música de Cabo Verde está a chamar a atenção dos maiores lables internacionais, esta primeira auto-produção de Quim Alves, que já conta com 9 temas pré-mixados, já despertou o interesse da prestigiada editora europeia BMG-SONY.

Segundo este exímio artista canhoto, essa multinacional da indústria musical, que já tem vários temas desse disco em mãos, já manifestou vontade de incluir o produto final no seu catálogo, devendo o pacote ser negociado logo que as 12 faixas estiverem masterizadas, o que, segundo Quim, deverá acontecer em finais de Fevereiro.

Presentemente nos EUA, onde aguarda o nascimento de uma filha, que a sua cara-metade, Esmy Andrade, carrega no ventre, Quim disse a Nôs Jornal que esse seu disco irá incluir alguns duetos com prestigiados músicos da praça cabo-verdiana, entre eles, o seu irmão Káko Alves (guitarra), Totinho (sáx soprano) e Swagato (flauta), para além Kwame Gamal que se ocupou da percussão e dos búzios.

Como seria de se esperar, Quim, fruto da sua impressionante e invulgar polivalência, nesse trabalho, toca uma série de instrumentos mas com a particularidade de serem todos acústicos. E o argumento não poderia ser outro: “A história da música de Cabo Verde faz-se é com instrumentos acústicos”, destacou.

Refira-se que após ter passado por grandes conjuntos musicais, entre os quais, Abel Djassy, Os Tubarões e Finaçon, primeiro como guitarrista e depois alternando a guitarra e os teclados, Quim Alves lançou-se na produção musical, passando a ser o criador de alguns dos maiores sucessos discográficos dos últimos 15 anos. Citando apenas escassos exemplos, basta recordar que é ele o arranjador de obras como Livro Infinito, de Bana, Morango do Nordeste, de Roger, todos os discos de Zé Rui de Pina e Heavy H, Dog, de Chandinho Dedê, Boca Povo, de Jorge Neto, etc.
 

Um criador de sucessos
Em 2005, de entre outras criações de Quim Alves, os amantes da música de Cabo Verde vibraram com várias produções a destacar, “Conexão Praia /Dacar”, em parceria com Manú Lima, “Tarrafal Star”, obra que reuniu notáveis do Tarrafal, nomeadamente, Mário Lúcio, Chando Graciosa, Princezito, Ibrantino Costa, Bela e outros. Mas para o poli-instrumentista /compositor e arranjador, duas obras tiveram um significado especial: “O disco Crianças di Nôs Terra em colaboração com Nando da Cruz para além do seu elevado valor artístico, demonstrou quão grande é o espírito de solidariedade dos músicos cabo-verdianos. Mas tenho que realçar que disco de Batuco, Pó di Terra, para mim, também tem um significado especial pelo facto de nele eu ter reunido um grande número de adolescentes por volta dos seus 12/13 anos. É que sou de opinião que com a nossa cultura educamos os nossos jovens e prevenimos certos males sociais dando-lhe uma ocupação salutar.

Do estúdio de Quim Alves, K-Magic Studios, localizado na cidade da Praia, de entre outros discos, em 2006, deverão ser editadas obras dos seguintes artistas: Mayra Andrade, Nhonhô Hopffer, Djudja, Nanuto, João & Carlos (tradicional de Sto Antão) e Oba.

Aos 41 anos de idade, Joaquim Fernandes de Pina Alves, que foi recentemente condecorado pelo Primeiro-Ministro, JMN, “pelos seus alto serviços prestados à cultura” é, indiscutivelmente, uma das figuras maiores do panorama musical cabo-verdiano e africano, tanto é que, nesta sua brilhante carreira, já faz arranjamentos para vários artistas dos PALOP nomeadamente, Justino Delgado e Djipson (Guiné Bissau), Carlos Buruti e Nanuto (Angola).


Este artigo foi publicado na edição 21 do Nôs Jornal. Posted by Picasa